5 de dez de 2009

E N R E D A D O

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O senso do ridículo das novelas da Globo
é a estampa de cordeiro
da minha alma de lobo.

A seriedade ensaiada das reportagens da Globo
é a estampa de esperteza
da minha alma de bobo.

A alegria lacrimosa na cara do domingão
é a estampa de seriedade
da minha alma de bufão.

A mensagem farisaica da mentira televisada
é a estampa de crendice
da minha alma enganada.


O sorriso em xis forçado das estrelas da TV
é o choro revoltado
que a minha alma não vê.

Se olho não ouço.
Se vejo não creio.
Mute,
mudo constantemente de canal.
É a Ética indignada
da minha alma digital.

POA, 08/10/96.
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Publicado no Jus Sperniandi, do autor, no Uol,
em 02/09/2004.
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MEU DEUS! TENHO QUE IR AO CENTRO!

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Hoje pretendo ir ao centro. Primeiro vou pesquisar qual o protesto do dia e ver se, por acaso, não vai atrapalhar meu itinerário.

Aqui diariamente há protesto: de sem-terras, professores, garis, aposentados, moradores de rua (uma coisa: se forem de rua, podem ser moradores?), de juízes, gays (por favor, observem a vírgula), de não-gays, de promotores, de policiais por falta de segurança, de mulheres de
policiais, de modelos... não! Estas, definitivamente, ainda não fazem protestos de rua. Pena!

Desconheço protestos de jornalistas, mas desconfio que logo logo eles também vão ter que aderir a esse tipo de manifestação...

Não é que eu tenha medo, embora há alguns anos uns sem-terras, usando inocentes instrumentos de trabalho (foices, machados e enxadas) degolaram um brigadiano em plena Rua da Praia.

É que detesto filas, trânsito atravancado e os “protestantes”, mesmo que apenas alguns gatos pingados, dominam e trancam as ruas, apoiados oficialmente.

O direito de protestar deles se sobrepõe ao de ir e vir dos demais, principalmente daqueles que cometem o supremo pecado mortal de, neste país, ser proprietários de um veículo e, por isto, considerados ricos e merecedores do fogo do inferno.

Certa vez, numa ação de alimentos, um advogado argumentou que o alimentante era rico porque possuía um Chevette 79. Na decisão salientei que ser proprietário de um chevette, naquelas condições, era prova mais de pobreza do que de riqueza. Não sei porque, mas não fui bem compreendido...

O centro, nos dias normais, é caótico, sem estacionamento nem segurança. Pelo menos quando há protestos há maior segurança, mas apenas para aqueles que protestam.

Tenho que tomar cuidado também com carroceiros, papeleiros, cavaleiros, ciclistas e skatistas.

Um Diretor da EPTC defendeu que “existe uma hegemonia do automóvel na via, mas ela é de todos, de pedestres e até de skatistas”.

O Código de Trânsito não o permite, mas para quem desmerece a vida, a integridade física e a cidadania – esta, aliás, anda tão rebenqueada pelas artes governamentais que deixou de ser um conceito sério e passou a mera expressão idiomática – a lei é o que menos importa.

Prefiro ir a Santa Catarina – conheço um atalho por Viamão que dá direto na freeway e ainda desvia do posto de pedágio de Gravataí – do que ao centro de Porto Alegre.

Então, se amanhã eu não escrever nada procurem meus restos mortais no IML. Ou estarei na Central de Polícia prestando contas por ter atropelado algum skatista.

Ainda bem que tenho curso superior. Se for detido, serei agraciado com o direito a prisão especial, com ar condicionado, telão, cinco refeições por dia e, o que é mais importante de tudo, uma inabalável sensação de absoluta segurança.
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Publicado no Jus Sperniandi, do autor, no Uol,
em 01/09/2004.
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