7 de ago de 2010

O ILUMINADO (filme)

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Li, há algum tempo, aqui, que o O Iluminado, de Stanley Kubrick foi considerado o filme de terror mais perfeito já realizado, de acordo com uma nova fórmula matemática.

Bem. Não sei se uma fórmula matemática, por mais elaborada que seja, consegue sobrepor-se ao subjetivismo de cada um na mensuração de medos e fobias. Pode ser generalizadamente, mas individualmente óbvio que não.

Mas se trata de um excelente filme mesmo para aqueles que, como eu, não aprecia muito o gênero, mormente quando descai para o lado sobrenatural ou quando os elementos intimidadores são monstros como dinossauros, vampiros ou espíritos malvados.

Nada como o velho Hitchcock e seu suspense escancarado. Esconder-se numa sala escura e assustar crianças é fácil. O difícil é fazê-lo na presença delas, às claras, num salão de aniversário.

Não quero me vangloriar, mas já produzi um enredo em que o consegui. E filmei em Super-8... Quando minha filha completou quatro anos contratei uma pantera cor-de-rosa para animar a criançada.

Foi só ela aparecer e um guri abriu o berreiro e refugiou-se debaixo de uma mesa. O choro contagiou outras crianças e aquela foi a festa de aniversário mais curta que minha filha teve. Quinze minutos depois os convidados tinham debandado e a pantera ficou sentada, num canto, desolada.

O Iluminado é baseado numa obra de Stephen King, de quem nunca li nada. Mas garanto que o filme é superior. O diretor integrava uma minoria capaz realizar um filme melhor do que o romance inspirador. Mas os fãs de King, quando do lançamento, torceram o nariz alegando que o livro havia sido deturpado.

A história é inicialmente singela: um escritor frustrado (Jack Nicholson, numa de suas melhores interpretações) é contratado para manter ativas as caldeiras de um hotel nas Montanhas Rochosas, fechado ao público durante o inverno em razão da intensa precipitação de neve. Acompanham-no a mulher e o filho pequeno. Aproveitaria para escrever um romance há muito projetado.

Mas o isolamento acaba provocando distúrbios mentais imprevisíveis, ou nem tanto, e a paz familiar é quebrada por uma guinada de 180º na conduta do pai que passa a encarar o filho (Danny Lloyd, numa interpretação primorosa e dificílima) como um estorvo...

A mulher, Shelley Duvall, foge completamente ao estereótipo hollywoodiano. Não é nenhuma beldade, o que torna o filme ainda mais natural, sem o glamour artificial das estrelas consagradas (ela foi a Olívia Palito em Popeye).

As locações e paisagens são lindíssimas e valem 50% do filme.

Há cenas assustadoras e vou revelar apenas uma, para não esculhambar a surpresa dos que por acaso se sentirem encorajados a assistir. Não é espalhafatosamente chocante mas atemoriza: a mulher, a certa altura, consegue acidentalmente conferir as centenas de páginas do romance que o marido datilografava (cujo acesso lhe fora negado) e verifica que, em todas, há apenas a repetição constante de uma única frase: “All work and no play makes Jack a dull boy (Muito trabalho e pouca brincadeira fazem de Jack um menino entediado)”. Nas legendas foi traduzida como “Muito siso e pouco riso fazem de Jack um infeliz”.

O final deriva para a paranormalidade. Para o meu gosto, seria melhor um final mais lógico, mas mesmo assim a saída não deixa de ser criativa. Afinal, o roteiro não poderia se afastar do livro-base.

Para quem detesta filmes de terror com citações sobrenaturais o fato de eu ter gostado é indicativo de que é realmente um bom filme. Ou não!
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