13 de set de 2010

CLARISSA

Publicado originalmente em 13/09/2004


CLARISSA, MINHA FILHA, ESTÁ DE ANIVERSÁRIO HOJE

Sempre achei minha filha bonita. Nem posso conceber como pudesse ser diferente. Toda coruja gaba seu toco! Também não estou querendo fazer propaganda: ela é casada e pode ser vista com o marido no Espelho sem Aço.

Aliás, dizer que sempre a achei bonita não representa bem a verdade. Quando ela nasceu foi colocada, mesmo sem necessidade, numa incubadora,claberlim enquanto a Ieda se recuperava da anestesia. O cegonhão, doutor Pascoal, levou-me para vê-la e me distrair. Eu estava muito preocupado. Olhamos para aquela coisinha entrouxada lá dentro, pele vermelha e enrugada, e ele disse, vendo-a com olhos de médico: “É. Realmente é uma criança muito bonita”. Respondi, meio desconsolado: “Doutor Pascoal, o senhor me perdoe! Mas, sinceramente, não estou achando”. Não consigo achar recém-nascido bonito.

Por causa dos problemas da Ieda eu não tive condições de assimilar logo a emoção de ser pai. Ela veio depois e quando veio me subtraiu a lucidez: uns quatro meses da mais pura ridicularia, que incluiu eu a levando ao fórum sobre uma almofada, pois não sabia segurá-la direito, para exibi-la aos outros. Na verdade, para exibir-me.

E as fotos. Até completar 7 anos de idade, diariamente batíamos uma foto dela. Desistimos porque estava se tornando uma idéia fixa, algo doentio. Às vezes, na cama, me lembrava que naquele dia ainda não havia batido. Corria, pegava a máquina, e clic. Ela deve ser menina que mais tem fotos dormindo. Acho que vou inscrevê-la no Guiness.

Nunca fui muito liberal. Na adolescência dela fui até um tanto rígido. Numa das primeiras festas que ela quis ir eu estava relutante. Mas após ela insistir um pouco, concordei.

– Mas só até a meia-noite! – deixei bem claro.

Ela:

– Mas pai, a festa começa às 23,00 horas...

Eu estava acostumado com as domingueiras de Taió, que acabavam às 18,00 horas no inverno e às 19,00 no verão.

Quando a Ieda estava grávida eu advogava e defendia uma causa em Curitiba, com ramificação em Foz do Iguaçu, para onde fiz várias viagens. Obtive informações de um agente da Receita Federal em Cascavel – que o fora antes em Taió – sobre onde adquirir uísque não falsificado. Fui comprando alguns litros já pensando no casamento de minha filha. Eu tinha certeza que seria menina. Consegui efetivamente guardá-los e foram bebidos na festa, no início de 2003...

Nunca fui possessivo nem ciumento. Sempre tive consciência de que um dia ela encontraria sua cara-metade e viveria sua própria vida. Preparei-me condizentemente para o casamento. Até o dia do casamento, porque me esqueci de um pequeno detalhe, muito importante: the day after. Ela fatalmente deixaria o lar paterno e voaria para o próprio ninho e para isto eu não me preparara. O choque foi potencializado pelo fato de o casal comunicar, antes, que o seu ninho seria no Espírito Santo...

A depressão foi passageira e ajudou-me a emagrecer 14 quilos. No dia do casamento eu estava muito elegante. Já os recuperei, mas até nisso contribui para a felicidade dela, ao menos para fins fotográficos.

Eu tenho uma garrafa de 700 ml de Royal Salute, 21 anos, que comprei meio por engano – confundi dólares com cruzeiros –, e que subtraí  à festa do casamento, na última hora, para alguma outra ocasião especial.

Hoje vou tomar uma dose e fazer um brinde em homenagem a ela.

Um beijo, filha.

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