12 de set de 2010

Uma noitada erudita

Publicada originalmente em 06/09/2005

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Ontem à noite, apesar do frio e da distância, fomos ao Teatro do Sesi ver a apresentação da violinista japonesa Midori, um prodígio do violino.

Com a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, ela interpretou o Concerto de Violino de Prokofieff e, no bis, uma sonata de Bach. Foi, naturalmente, aplaudida de pé, voltou ao palco quatro vezes mas não se rendeu e ficou num único bis.

Esperava mais. Não mais um bis, mas alguma coisa mais esplendorosa que permitisse melhor apreciar a qualidade da solista.

Não duvido que seja uma grande violinista, pelo contrário: tenho um cedê excelente dela. Ela é pequeninha e sua aparente fragilidade desaparece quando começa a tocar um violino Guarnieri, de uma sonoridade exuberante cujo arco, de longe, parecia ser quase do tamanho dela.

Mas ouvir uma peça desconhecida tem suas desvantagens: não há elementos de comparação para verificar se foi ou não bem tocada. Deve ter sido, porque não ouvi nenhum desses erros que são perceptíveis de logo, tão gritantes que machucam os ouvidos. Assim como quando o Zezé de Camargo e o Luciano – por exemplo – acertam. A gente percebe logo. As dissonâncias que ouvi devem fazer parte da música. A seguramidorinça que ela transmitiu foi indiscutível.

Há outro problema, mas este é meu. Gosto muito de música clássica (agora estou ouvindo Bach, a Sonata n. 5, para flauta, pela Kusc, que linkei aí do lado, e que é a rádio de melhor sonoridade que já sinto nizei pela Internet).

Mas não eduquei meu ouvido para apreciar a maioria das obras de compositores modernos. Suas músicas parecem um carro que você quer fazer pegar no tranco, o motor acende, mas logo apaga. A música começa a engrenar rumo a uma explosão melodiosa e, de propósito, há um intervalo comercial e na volta o autor esqueceu do que estava compondo e desvia por outro caminho. Não sei se falar em melodia é correto porque me parece que há apenas uma alternância de barulhos, mais ou menos organizados, que deve satisfazer ao próprio compositor, impressionar seus colegas que entendem de música e entendiar o público. Há muito tempo os eruditos vêm fazendo música para si próprios e isto explica porque os diletantes de música clássica estão voltando às origens e o surgimento de coisas como o tchan, os sertanejos e os bondes do tigrão.

Estou seguindo o caminho inverso, voltando aos compositores antigos e levando isto a extremos. Comecei a gostar de música clássica ouvindo Mozart e Beethoven e clássicos como Vivaldi, Bach e Haydn. Depois os românticos como Brahms, Schumann, Chopin, e os retardatários como Mahler e Bruckner.

Agora estou voltando para o Classicismo, para o Barroco e mesmo para o Rococó e seus gorjeios exageradamente graciosos. A sonoridade dos instrumentos antigos, e ainda hoje algo toscos, é extraordinária, mesmo aprimorada pelas técnicas das gravações modernas (desse tipo de modernidade eu gosto).

Mas voltando ao concerto. A Midori tocou apenas duas peças. Depois a OSPA, regida por Isaac Karabtchevsky, interpretou a Sinfonia n.º 9 (“Novo Mundo”), de Dvorak. Fiquei surpreso. Nunca assistira antes a OSPA tão afinada e tocando tão bem.

Valeu sair de casa indo do Extremo Sul ao Extremo Norte de Porto Alegre para a noitada musical. Afinal são apenas 40 km. Só de ida.

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