29 de dez de 2010

VÁ SE PREPARANDO PARA A VIRADA

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Publicado originalmente em 26/12/2008.
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A batalha natalina passou, com a sofreguidão das compras, o vermelho na roupa do Noel transferido repentinamente para a sua conta bancária, as bengalas doces se transformando em cabos de guarda-chuva (aqueles do gosto na boca) e você pára, desconsolado, e descobre que tem que se preparar para o réveillon, este sim que exige uma performance muito mais apurada.
Se você não se preparar bem não chega ao ano seguinte, 2010, porque bestas feras, ruínas, desgraças, ameaças e infortúnios o esperam em cada curva e reta do caminho. É preciso tomar algumas cautelas para evitar essa desgraceira. Mas não se preocupe. Tudo tem solução. O mundo é mágico.
Tradicionalmente deve se vestir roupa branca na virada. Inclusive as cuecas para os homens. Novas! Para as mulheres as coisas são um pouco diversas: calcinhas rosa para atrair o amor, vermelhas para a paixão, azuis para a saúde, amarelas para dinheiro e fartura e brancas para a paz e felicidade. Se eu fosse mulher mandaria confeccionar logo uma com as cores do arco-íris, se os gays não se importassem. Cercaria por todos os lados (ops!). 
É preciso comer lentilhas, também, para ganhar dinheiro. A lentilha é o símbolo da prosperidade em muitos países do mundo. Mesmo naqueles que não são prósperos. Lentilha, pelo gosto, é um feijão sem graça por isto não a aprecio: separo cuidadosamente o bacon e outros ingredientes utilizados no tempero, que é o que mais gosto. Mesmo assim, principalmente durante a época da inflação galopante, sempre recebi, pelo menos nominalmente, mais no ano seguinte do que no anterior. Agora, há uns nove anos, calculo assim por cima, não ganho mais. E, nominalmente, menos.
É também costume antigo comer carne de porco e evitar a de galinha. Dizem que é porque o porco fuça pra frente e a galinha cisca pra trás. Ocorre que o porco vive em condições imundas e para fuçar para frente necessariamente enfia a cara na... merda. Aliás, antigamente, quando esse costume surgiu, eles viviam literalmente na bosta dos chiqueiros, amontoados, sujos e fedorentos. Já a galinha, se é certo que cisca pra trás, por outro lado caminha pra frente. São certas inexplicáveis incongruências.
No último réveillon tomei conhecimento da existência de um santo que deve ser reverenciado na virada de ano: o São Longuinho, de quem até então nunca ouvira falar. Para assegurar um bom ano, você deve pular sete ondas em homenagem ao santo, dizendo uma prece cujo teor não decorei ainda. Acho que essa micagem só vale para quem está na praia. É óbvio. Quem passa o Natal na serra, ou no interior, vai ter que arrumar outro obstáculo.
Como não quero piorar minhas condições físicas, só vou pular se São Longuinho me prometer a cura das dores da coluna. E ainda assim só do tapete da sala – que tem quatro ou cinco milímetros – direto no chão. Devidamente amparado, para maior segurança.
Também é importante que você se livre de tudo o que está quebrado. Jogue fora! Eu tentei fazer isto, mas descobri que iria ficar com pouca coisa dentro de casa e desisti. Custa muito caro repor tudo o que está quebrado, ainda que não absolutamente sem serventia.
Você deve, também, separar três sementes de romã, que atraem sorte e fortuna, deixá-las secar até o dia 06 de janeiro e depois guardá-las na carteira. Para assegurar-se de que, pelo menos alguma coisa você vai encontrar nela no fim de 2009, quando for substituí-las por outras. Elas atraem dinheiro, mas se você espera que se transformem em dinheiro, perca a esperança.
Não se pode, naturalmente, esquecer das uvas – daquelas dedo-de-moça – e guardar o caroço. Isto trás paz e prosperidade. Os homens devem pegar apenas dois bagos, segurá-los e andar com eles na mão por pelo menos meia hora. Aí então, meus leitores do sexo masculino, vocês terão a exata compreensão de quão importante é o saco na nossa anatomia. As mulheres podem se servir à vontade, com os do cacho ou com os de fora dele.
Há mais, mas acho que essas são as mais interessantes que pude coletar.
Particularmente não dou a mínima para as disposições instrumentárias adequadas a um ano que vem melhor que o ano que passou. Considero essa transição apenas numérica, sem qualquer outra implicação.
A única coisa que tenho certeza que dá certo é simples: acesse o Jus Sperniandi sempre que quiser e se você gostar divulgue-o aos amigos e inimigos. Terá momentos de paz, de guerra, de tolerância, de ranzinzice, de bom humor ou de indignação, enfim, tudo como até aqui vem ocorrendo.
Dinheiro, infelizmente, não virá como conseqüência. Se vier, será por outro motivo.
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