18 de out de 2011

VOCÊ PREFERE UM NEGRINHO OU UM BRANQUINHO?

.
.
No tempo da infância de minha filha, quando ela comemorava aniversário, caprichávamos nos docinhos. Lembro que havia dois tipos opostos, entre muitos outros que se fazia, que eram chamados de branquinhos e negrinhos.
Os branquinhos eram à base de leite condensado com coco, revestido de coco ralado; os negrinhos eram à base de chocolate e enfeitados com chocolate granulado. Hoje em dia são chamados de brigadeiros. Por quê?
Porque é politicamente incorreto chamar docinhos escuros de negrinho. Você não percebe uma conotação racista no substantivo? Eu também não! E é difícil arrancar uma conotação deste tipo de um substantivo. Os adjetivos é que são apropriados, mas...
Concordo que a expressão comer um negrinho pode ser mal interpretada. Mas não mais do que se se dissesse comer um branquinho. Tudo depende das circunstâncias. Nos aniversários infantis daquele tempo nenhuma malícia havia nas crianças esbaforidas: mãe, quero um negrinho! ou mãe, quero um branquinho! Eram as expressões mais ouvidas nos aniversários (naquele tempo as crianças eram educadas e ainda pediam docinhos. E os negrinhos, por serem de chocolates, eram os que mais agradavam as crianças.
Há muitas outras coisas hoje indicadoras de situações que mentes poluídas consideram politicamente incorretas. O PT quis nos atochar a Cartilha do Nilmário Miranda sobre o politicamente correto, como necessária à boa convivência entre os brasileiros, mas ela, por sua impropriedade, se perdeu no breu das noites da história recente. Sem conotação racista de qualquer espécie.
Já ouvi críticas acerbas à expressão mercado negro, quando se fala do dólar americano – quando se falava, porque hoje o dólar está tão desprestigiado que só é negociado no mercado branco (de novo, sem qualquer conotação racista – que ou da compra de mercadorias com ágio. Também é incorreto dizer que a coisa está preta, por mais preta que esteja e está. Ambas as expressões guardariam, ainda que reconditamente, alguma alusão pejorativa à raça negra.
Não acho. Não acho que essas expressões, e outras parecidas, tenham emergido em nossa língua como decorrência de situações que envolveram ou envolvam a raça negra. Acho que elas definem apenas situações opostas à, por exemplo, claridade.
Se a coisa está preta quer dizer que não está clara e as coisas claras são difíceis de ser vividas. A expressão mercado negro significa um comércio feito às escondidas, não às claras, e até que me provem o contrário não creio que seja oriunda de antigos mercados de escravos onde os negros – mas não só eles – eram vendidos como tal. O mundo teve, em muitas eras, escravos brancos. Os índios também foram escravizados no Brasil, embora sua submissão não tenha sido bem sucedida.
Voltando aos docinhos da infância de minha filha (meu Deus, como estou ficando velho, usando referenciais da infância de uma geração que ajudei a criar!). E se os brigadeiros se sentirem ofendidos, ou moralmente depreciados com o uso de seu nome em docinhos de aniversário de crianças? Como vamos denominar esses inofensivos e doces bocados? De escurinhos, ou de marronzinhos? Não. A conotação permaneceria. Escurinho, inclusive, pode soar até como um eufemismo mais ofensivo que negrinho, se é que negrinho pode ser considerado ofensivo.
Estamos nos perdendo nos detalhes, enquanto o principal fica resguardado e livre de enfrentamento. Tempos obscuros, estes, o de considerar o uso inocente da palavra negrinhos como pejorativo. Ainda que esses negrinhos sejam uma expressão infantil e representativa da mais achocolatada doçura. 
.
Publicado originalmente em 02/05/2008,
no blog Jus Sperniandi, então no Uol.
.

Um comentário:

  1. Prezado Sr. Ilton.
    Não encontrei aqui no blog um local próprio para lhe enviar esta mensagem.
    Por isso a estou colocando aqui.
    Circula na internet um texto cuja autoria lhe é atribuída: CARTA DE UM JUIZ DE DIREITO AO ZIRALDO E AO JAGUAR.
    Gostaria de divulgá-lo em meu site: comvir.org.
    Peço que me informe onde poderei encontrar o seu texto original.
    Atenciosamente, Francisco

    ResponderExcluir