Certos princípios mantêm alguma semelhança, embora
aplicados em campos diferentes, mas que induzem a permissões de uso ou não.
Pois por aí já começa a complicação: o que é semelhante não é igual, é
diferente, e por isto a afirmativa. Vou tentar explicar.
Quando meu filho corria de kart eu, que sou filho de
mecânico e passei grande parte de minha infância sujo de graxa numa oficina,
entre calhambeques, ônibus, caminhões, ferro-velho, tornos e outras ferramentas,
avoquei para mim certas funções.
Além de paitrocinador,
era também mecânico. Pelo menos assistente do preparador que eu pagava para
tal. Não devo ter estorvado muito, porque a equipe foi sempre bem sucedida.
Pois bem. Às vezes um simples parafusinho quebrado era
motivo de sair pelos outros boxes procurando um igual. Para coisas pequenas até no kartismo há solidariedade.
— Igual não tenho, mas tenho um parecido aqui ó!
Serve?
— Não, parecido não adianta. Tem que ser igual.
Essa foi a melhor contribuição filosófica que o kart
deu à minha vida: a conclusão óbvia, mas que não parece tanto, de que tudo o
que é parecido é, natural e inexoravelmente, diferente...
Assim na mecânica automobilística, na Física, no
Direito, na Medicina e em todos os campos da atividade humana.
Mas o melhor exemplo dessa dicotomia interessante me
foi dado pelo tio Zeca, que viveu lá nos interiores do interior de Taió. Não
sabia ler nem escrever e nunca frequentou um dia de aula. Mesmo que talvez não soubesse decifrar cientificamente
a proposição, ele tinha noções empíricas, instintivas e precisas dela.
Apesar do pouco estudo, era um negociador esperto.
Certa vez adquiriu dois garbosos bois de canga para atrelar no seu
carro-de-boi. Eram semelhantes. Um era parecido com o outro; mas eram
diferentes. Ele não teve dúvidas e deu-lhes os nomes de Diferente e Parecido.
Eu nunca descobri qual era o boi Parecido e qual era o
boi Diferente. Mas ele os identificava com uma olhadela de relancina...
Só não sabia que o batismo de seus bois foi a mais
prática demonstração de um teorema que nem Pitágoras nem Thales de Mileto
tiveram coragem de propor.
Observação:
A imagem à esquerda é parte de uma foto do tio Zeca
batida por mim. A da direita é uma pintura de Ieda M. F. Dellandréa, em
aquarela.
Como se pode ver eles estão parecidos. Mas
diferentes...
Publicação original: 11/08/2007
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