25 de nov de 2009

E S P U M O S O

.

.
Os pequenos acasos da vida são facilmente ultrapassáveis. Mas, e quando se trata de algo mais importante e duradouro? Então um certo temor, absolutamente explicável, toma conta de nossa mente ante a perspectiva do desconhecido.

Com Espumoso foi assim. Eu participava de um encontro de juízes em Santo Ângelo quando o desembargador Marco Aurélio, recém-chegado da Capital, informou da minha promoção para Espumoso.

Espumoso? Nunca tinha ouvido falar.

Sou de Taió, interior de Santa Catarina, e residia apenas há um ano e pouco no Rio Grande do Sul. Vivia debruçado sobre processos numa Iraí há muito sem juiz e não fora possível aprimorar conhecimentos geográficos. Por isto ignorava a localização de Espumoso. Não faz mal. Logo descobri que lá também não sabiam onde ficava Taió...

Nesse lugar desconhecido geográfica e toponimicamente eu teria que viver, com a família, até a promoção seguinte...

A primeira satisfação foi na chegada. Fomos almoçar na churrascaria do Purudo e a mulher dele, uma senhora muito simpática, me tratou de “moço”. Agradeci, envaidecido. Comecei a simpatizar com a cidade. O acaso, às vezes, é mais carinhoso que uma escolha mais elaborada.

Permaneci pouco tempo na Comarca e notei entre os advogados uma lealdade exemplar. Em Iraí havia três ou quatro e eles se desentendiam mais do que gato e cachorro (no tempo em que gatos e cachorros eram inimigos). Em Espumoso havia nove ou dez e eram leais entre si e com terceiros.

No aniversário de um ano da filha de um deles quase todos compareceram. Em Iraí não era possível convidar três, porque ficariam um de costas para o outro.

Prova dessa união ocorreu num júri. O Defensor Dativo descobriu que sua mulher era parente de uma das vítimas e estava impedido de atuar. Isto uma semana antes da data marcada. Contatei o Dr. Marquese, representante da OAB na Comarca, expondo o problema. Não nesses termos, mas me mandou ir dormir que dariam um jeito.

Desentocaram de sua merecida aposentadoria o decano dos advogados da Comarca, Dr. Getúlio, então mais dedicado à sua fazenda do que às lides forenses, e que fora um dos melhores oradores do Tribunal do Júri. E coagiram o Dr. Valadares, um advogado de voz forte e presença marcante que para estas coisas, e para jogar futebol, apreciava muito ser coagido.

O réu, que numa briga no interior havia matado dois e ferido outros dois, nunca poderia imaginar que fosse tão qualificadamente defendido...

Acima, parte da Av. Ângelo Macalós. Eu contratei a peso de ouro um fotógrafo de lá para tirar fotos. Ele mandou várias. Mas só deu para aproveitar essa e outra que estou postando no Espelho sem Aço. A aqui publicada é fruto de puxa-saquismo: o prédio que aparece à direita, na esquina, naquele tempo abrigava o Fórum, e ele quis me agradar com essa lembrança.

Ele é um verdadeiro gênio: não resiste a uma garrafa, desde que contenha cerveja, e certamente entrou em alguma antes de tirá-las. Por isto, as demais saíram completamente tortas ou desfocadas e uma parece que está de cabeça para baixo. O pior é que paguei adiantado!

Antes que me esqueça: meu filho, o único gaúcho original da família, nasceu em Espumoso.
.
.
.
.
Publicado no Jus Sperniandi, do autor, no Uol,
em 20/08/2004.
.

2 comentários:

  1. Pitacos transcritos do original:

    [Régius Strelow Colossi] [regius@espumoso.com.br]
    Mas agora fiquei curioso a dupla conseguiu absolver o réu ou foram presos junto com ele???

    09/09/2004 15:44

    [Carlos Damião] [carlosdamiao@brturbo.com] [http://carlosdamiao.zip.net]
    Passei sim, lembro-me bem dos engenheiros falando em Jacuí como fonte de geração de energia. Abraço

    24/08/2004 00:10

    [Carlos Damião]
    Acabo de ver no Espelho sem Aço a foto do rio Jacuí. Deleta o rio Uruguai do comenta'rio anterior. Grato, um abraço, Damião

    23/08/2004 01:01

    [Carlos Damião] [carlosdamiao@brturbo.com] [http://carlosdamiao.zip.net]
    Conheci Iraí em 1978, quando trabalhava para a Eletrosul como estagiário de Sociologia. Nós rodamos aquela região toda, fazendo um trabalho de levantamento sócio-econômico. Gostei daquela paisagem, das casas - e lembro de um prédio em especial, acho que era o hotel, com cara de construção dos anos 40. Quanto a Espumoso - que nome mais poético! Já ouvi falar, nunca pude passar por lá, mas transpira poesia, porque naturalmente deve se relacionar ao rio Uruguai (?) [ou produzem champanhe por lá?]. Abraço

    23/08/2004 00:57

    RESPOSTA:
    Damião: o rio Uruguai passa ao lado de Iraí e acampei muito em suas margens. O nome "Espumoso" foi referido pelo Jô Soares, semana passada, junto com o de outras cidades, como curioso. Originalmente era "Salto do Espumoso". Bem perto, em Salto do Jacuí, tem uma hidrelétrica. Será que você, como estagiário da Eletrosul, não passou por lá?

    [Maria teresa baptista] [terepbb@terra.com.br] [Espumoso]
    Gostei do texto, uma bela lembrança de sua passagem por lá. mas o melhor veio depois..o nascimento do (espumosense?) Francisco... Quem nasce em Espumoso é..o que? à propósito e quem nasce em Taió?

    21/08/2004 02:27

    RESPOSTA:
    Quem nasce em Espumoso é espumosense. Quem nasce em Taió é taioense. Compreendo sua dúvida. Você, como cidadã do mundo, não tem nem como poder saber certos detalhes da nossa interlândia. Beijão.

    ResponderExcluir
  2. A origem do nome Passo Espumoso, assim chamado na época, motivo pelo qual havia o poço onde se montavam as balsas para o transporte de madeiras, Rio Jacuí abaixo. Mais tarde surge o nome "ESPUMOSO", ocasionado pelo fenômeno, original e único de abundadante espuma que, descia de diversas cachoeiras, e na revessa, perto do moinho, se punham a girar com águas, pelo lado esquerdo formando belos castelos cônicos de até 30 centímetros de altura que circundavam dia e noite no remanso do rio margeado por lindas e frondosas árvores nativas, formando uma paisagem que encantava os viajantes que aqui passavam. LFC 29/07/11

    ResponderExcluir