17 de nov de 2009

NAS ASAS DO QUETZAL

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Há algum tempo deixei de ler romances. Troquei o gênero por biografias e por relatos de fatos reais. São mais confiáveis, exceto as autobiografias: nestas, inconscientemente (ou não) os autores minimizam suas fraquezas e exaltam seus acertos.

Os romances me desencantaram, muitos por sua inverossimilhança, muitos por sua artificialidade e também por erros históricos ou do próprio entrecho.

A vida real sempre é mais interessante. Os dramas, sofrimentos, alegrias e desenganos são autênticos, sem que o autor tenha que se contorcer visando dar credibilidade a fatos psicológicos que não experimentou.

Li muito sobre compositores, principalmente Mozart, cuja vida é peculiar. Nenhum romancista, por mais imaginativo que fosse, poderia criar aquele enredo sofrido e doloroso cujo personagem, mesmo assim, nos deixou obras alegres e vivas, numa contradição psicologicamente difícil de entender. Algum dia vou me deter mais sobre o assunto.

Depois me dediquei a leituras sobre a conquista do Everest. Li inclusive as insinuações um tanto maliciosas de Jon Krakauer (No Ar Rarefeito) contra o alpinista russo Anatoly Boukreev e a resposta deste, mais convincente (A Escalada), em relação à tragédia de maio 1996. Vi o dvd Morte no Everest, baseado no livro do primeiro.

Depois me envolvi com as conquistas dos pólos e o trágico desfecho da incursão do capitão Scott, sobrepujado pelo norueguês Amundsen na chegada ao Pólo Sul, em obras baseadas em relatos dos próprios personagens e em outros. Devorei mais de 5000 páginas a respeito.

Recentemente li um livro de um porto-alegrense que refoge às características épicas desses últimos.

América Central nas asas do Quetzal, de Eduardo Soares Batista, narra as peripécias e descobertas de uma viagem de cinco meses por países da América Central (Belize, Guatemala, El Salvador, Honduras, Nicarágua, Costa Rica e Panamá), quase sempre via terrestre para reforçar o contato direto com lugares e pessoas. O próprio autor sai advertindo que “o principal personagem do livro é a região, não é o viajante”.

Eduardo é um mochileiro esclarecido formado em Economia e Engenharia Química e atualmente cursa História da Unisinos. Nas suas andanças pelo mundo “já exerceu a função de engenheiro na França, foi garçom na Grécia, agricultor em Israel e professor de Inglês em Porto Alegre”.

Não se trata de um épico nem o autor saiu a subjugar píncaros ou lugares inacessíveis ou inalcançados nem quis ser um pioneiro e conquistar cidadelas inexpugnáveis. Também não o motivou o espírito “heróico” e oportunista de outros que, seguros em cápsulas e bem patrocinados, saem mundo afora estimulados pelo prazer da aventura e do desafio às vezes gratuito e sem sentido.

Antes traça um perfil sobre a incomum e peculiar civilização Maia, cujo povo se dispersou como que cumprindo um acordo tácito por motivos ainda não esclarecidos e passou, de uma forma ou de outra, a enriquecer a cultura e a formação dos países visitados.

Destes, extrai verdades históricas, geográficas, sociais e econômicas, algumas que sequer supomos pudessem existir tão relativamente perto de nós. Outras, como a pobreza, tão familiar porque comum a todos os povoeiros dessas américas que até no globo terrestre situam-se em posição inferior.

Só o contato direto e estreito, pessoal, tête-à-tête, poderia revelar alguns desses mistérios de nós desconhecidos. Pois, como adverte o autor, “as vestimentas coloridas dos indígenas podem ofuscar nossos olhos e mascarar a sua realidade que pode ser preta e cinza”.

Nessas revelações reside a força principal da obra.




Publicado no blog Jus Sperniandi, do autor, no Uol,
em 17/07/2004.
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Um comentário:

  1. Pitacos transcritos do post original:

    [Glauco Damas] [glauco@uol.com.br] [http://portugueshoje.blog.uol.com.br]
    Terminei de ler, esta semana, o tão falado O CÓDIGO DA VINCI. Muito bom -- um verdadeiro "page turner", como diriam os americanos. História bem construída e fundamentada em várias pesquisas. Há teorias (sobre religião) que podem chocar muitas pessoas, mas, tirando isso, a história em si, a trama em si, o SUSPENSE em si... vale a pena. Bom, leio todos os tipos de livros. Só costumo evitar as AUTObiografias -- só li a de Agatha Christie. Ultimamente, deixei meio de lado os ditos romances espíritas; eu gostava, mas ficaram fantasiosos DEMAIS, com muita gente dizendo que psicografa para vender mais.

    19/07/2004 00:46

    [Giorgia] [giorgia@gmail.com] [coisasbobas.blogpsot.com]
    Também adoro histórias de viajantes. Ouvi histórias parecidas com as do Everest lá na Cordillera Blanca, que tem os picos mais altos depois do Himalaya... Quando chegamos lá, um holandês acabava de morrer numa escalada. Toda temporada, morrem uns vinte alpinistas (no caso, andinistas). Há tempos não leio romances... Dei uma parada. No ano passado, quase só li livros budistas e zen budistas. Este ano, ampliei o espectro, mas não voltei aos romances.

    18/07/2004 17:54

    [Tell] [http://www.tagarela.blogger.zip.net]
    Ilton, adoro biografias e relatos reais, mas não largo os romances... acho que sou meio viciada rsrs Vou ler a sua dica!!!! Quer dizer, assim que arranjar tempo rsrsrs

    18/07/2004 16:15

    [Mariza] [marizadell@ig.com.br]
    Certamente a emoção me tomou conta, neste domingo de manhã, ao lembrar de tais acontecimentos... Obrigada! Precisamos disto para viver!

    18/07/2004 13:00

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