16 de nov de 2009

O MOBRAL "ANALFABETIZOU" CRIANÇAS

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Esta semana, ISTOÉ e VEJA (edições nº 1813 e 1861, respectivamente) trazem matérias semelhantes, mas em contextos distintos e que provocam conclusões também distintas, mas que devem ser canalizadas num só objetivo.

ISTOÉ (página 40) louva o programa de alfabetização no Acre, salientando a alegria de adultos que finalmente conseguem escrever um bilhete simples como “eu fui para aula se quiser comi da esquente foi eu que escrevi”.

VEJA, na coluna RADAR, de Lauro Jardim (página 34), refere falhas do programa de livros didáticos e aponta que “a habilidade do estudante brasileiro para leitura foi considerada a pior num estudo recente feito em 32 países”.

Emoções à parte, já é possível perceber a perplexidade que a contradição dessas constatações provoca. Mas é preciso acrescentar mais um ingrediente.

Nos anos 70 do século XX foi lançado no Brasil um programa visando alfabetizar a população adulta, o MOBRAL – Movimento Brasileiro para Alfabetização de Adultos. Talvez por seu gigantismo, tão em voga no tempo da ditadura, não tenha produzido bons resultados como o programa do Acre parece apresentar.

Mas o que dói é concluir que se hoje ainda temos adultos analfabetos é porque, naquela época, foi descurada exatamente a alfabetização infanto-juvenil. Significa que se os imensos recursos do MOBRAL tivessem sido aplicados na alfabetização de crianças certamente não teríamos hoje tantos adultos analfabetos no Acre (assim como em todos os Estados da Federação), que eram crianças quando foi lançado o movimento.

Vale perguntar: os adultos alfabetizados nos anos 70 aproveitaram o que lhes foi transmitido? Não creio. A maioria, porque o tempo é inexorável e não pára, já deve ter morrido. De certa forma, por mais insensível que possa parecer esta assertiva, a realização mais concreta do MOBRAL – embora possíveis boas intenções de seus idealizadores – foi desperdiçar dinheiro.

Os adultos têm mais dificuldade de aprendizado e ser alfabetizado não significa, apenas, saber ler letreiros grandes nas ruas das cidades ou nas telas da televisão e escrever bilhetes simples. A formação de uma criança até o curso superior leva, em média, 12 anos. Um adulto do Acre teria muita coisa a aprender até poder ser considerado alfabetizado.

Por isto, diante da dicotomia apontada, cabe perguntar: as crianças do Acre, e do resto do país, estão sendo convenientemente alfabetizadas hoje?

Porque, sem dúvida, numa escala de valores sócio-científicos, é mais importante alfabetizar crianças do que adultos. Se conseguirmos manter na sala de aula todas as crianças em idade escolar de hoje, dentro de 50 anos – numa expectativa pessimista – não teremos mais analfabetos no país.

A causa do analfabetismo adulto é a não alfabetização de crianças e esta é que deve ser combatida. Isto é óbvio, mas o óbvio, às vezes, é difícil de ser entendido. Galileu quase foi lançado à fogueira porque afirmou que a Terra gira em torno do Sol, e não o contrário. O analfabetismo adulto é uma conseqüência.

Temos que canalizar atenção e recursos para a formação escolar das crianças hoje para evitar que, daqui a 30 anos, o Brasil volte a se preocupar com programas de alfabetização de adultos, de duvidosa significância social e incapazes de recuperar a cidadania ampla a que todos têm direito.



Publicado no Jus Sperniandi, do autor, no Uol,
em 07/07/2004.
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Um comentário:

  1. Pitacos transcritos do post original:

    [Tell] [tellaragao@hotmail.com] [http://www.tagarela.blogger.zip.net]
    A educação deveria ser para todos: crianças e adultos... Um programa voltado para um desses grupos não deveria significar que o outro grupo foi esquecido... Agora temos que pensar que não basta alfabetizar... Não basta dizer que X% das crianças brasileiras estão na escola (pública), como insistem em fazer os políticos, principalmente em período eleitoral... Temos que pensar: Como anda a qualidade desse ensino??? Ah! o meu e-mail tá aí em cima pra vc me mandar a sentença!!! Claro que quero ler!

    08/07/2004 13:53

    [Glauco Damas] [glauco@glauco.damas.nom.br] [http://portugueshoje.blog.uol.com.br]
    Pois é, Ilton... Como acreditar que o Brasil é o país do futuro... se não investimos nesse futuro? A base de TUDO é a educação!...

    07/07/2004 21:23

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