17 de nov de 2009

PUBLICITÁRIOS GÊNIOS, PUBLICIDADE IDIOTA

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A televisão se comporta como um ente de desenvolvimento mental incompleto ou retardado, com raros intervalos de lucidez, e nos trata como se fôssemos portadores do mesmo retardamento. A julgar pela receptividade da programação da maioria dos canais e dos próprios comerciais, sou obrigado a reconhecer que naturalmente o somos. Não temos autocrítica suficiente para rejeitar e nos conformamos com tudo.

Nossos comerciais são repetitivos, sem criatividade e despidos de senso estético. A Ética é também pisoteada, como naqueles que ensinam a levar vantagem em tudo e que usam principalmente crianças para isto. Um dos últimos, da Caixa Econômica Federal, mostra um menino andando de skate na calçada, sem nenhuma proteção... Em seguida outro entra em cena e chuta, de propósito, a sujeira que uma senhora cuidadosamente amontoara para deixar mais limpa a via pública. Maus exemplos lançados em todos os horários, sem nenhum critério.

Mas nossos publicitários são elogiados como se fossem gênios.

Não há nada mais chato do que o papel daquele péssimo ator que faz gestos exagerados e fala como um bobo-alegre nas propagandas das Casas Bahia. De início, pensei que fosse algo passageiro, mas com a manutenção do esquema e seu crescente agravamento, imagino que vai ficar. Somos, na verdade, muito tolerantes.

Não estou sozinho nesta. Ainda ontem recebi, via e-mail, um arquivo em vídeo que apresenta um terrorista simulando torturar um preso: obriga-o a assistir a propagandas das Casas Bahia. O prisioneiro não resiste e sucumbe.

Duas marcas de cerveja lutam para – ultrapassado o affaire Zeca Pagodinho – ganhar o troféu de propaganda mais imbecil. Uma nos achincalha com um jovem não tão jovem imitando alguém de língua presa, dizendo asnices, e rodeado de mulheres bonitas e incentivadoras. Será que as mulheres preferem os burros? Outra usa um casamento em que o noivo parece ter passado da primeira infância à idade adulta em dois dias (não sei como, com a visão estreita que demonstra, conseguiu uma namorada e levou-a ao altar). Exige que a noiva prometa que será sempre gostosa porque sua cerveja o é. Assevera que sua mãe, presente, virou um bucho com o casamento...

São duas faces de uma mesma moeda de mau gosto igualmente tristes. Dá vontade de chorar.

O pior é que a coisa parece dar certo para os anunciantes e não vamos escapar desse tipo de apelativação (assim mesmo). Temo que a maioria dos nossos comerciais siga o rumo. Já há exemplos por aí.

No final dos anos 70 uma fábrica de jeans veiculou propaganda de uma calça feminina em que uma modelo permanecia de costas e estática enquanto vários marmanjos, alternadamente, entravam em cena e lhe davam palmadinhas no bumbum. Foi um rebuliço. Houve críticas feministas abominando o uso da mulher-objeto e a banalização do sexo.

Hoje nem se pensa nestes aspectos. Esse aí é de uma candura infantil perto de um recém-lançado pela Intelig, algo como use 3 e pague 2.

Eu vi o comercial apenas uma vez, se não me engano num intervalo do Programa do Jô, e posso não ser muito fiel na tentativa de descrevê-lo. Talvez eu tenha apenas sonhado e esteja cometendo uma injustiça... Não! Mesmo cochilando eu não teria criatividade para inventar tanta asneira na ordem direta. Meus sonhos são sempre sem pé nem cabeça, sem enredo, extremamente confusos.

Lembro que no final duas mulheres vestidas de vermelho viram as bundas para a câmera e rebolam. Em suas protuberâncias pode ser lido “paga 2” e “fala 3”. Em seguida o apresentador, depois de toda essa apelação, faz baixar uma tela ocultando-as e pergunta: “mas não é por isto que a gente vai ficar apelando, né?” É a quintessência da cabotinice.

Estou abandonando meu programa de fidelidade com a Intelig. A partir de hoje vou começar a usar outra operadora. É o meu modo quixotesco de protestar.



Publicação original do Jus Sperniandi, do autor, no Uol,
em 16/07/2004.
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Um comentário:

  1. Pitacos transcritos do post original:

    [Cora]
    Você tem toda a razão. Este da noiva é um dos anúncios mais imbecis de todos os tempos...

    08/10/2004 15:12

    [Giorgia] [giorgia@gmail.com] [www.coisasbobas.blogspot.com]
    Não vi todos os comerciais a que te referes (porque raramente ligamos a TV aqui em casa), mas posso te dizer que aquele em que a "noiva tinha de permanecer gostosa" me deixou chocada. O cúmulo do chauvinismo, meu Deus do céu! O que é aquilo? O meu medo é que as pessoas achem engraçado e saiam repetindo... Tenho medo que essas coisas "colem", sabe? Pra te ser sincera, me dá uma tristeza profunda. Não estou exagerando. O menino das Casas Bahia é um caso ainda mais grave, porque é agenciado pela Marlene Mattos e pode virar um "Xuxo", dado o telento da empresária... Ai, ai... :-(( (também uso dos mesmos métodos "quixotescos" de protesto...)

    17/07/2004 18:57

    [Thiago] [www.wamozart.cjb.net]
    Ilton, Muito lúcido o seu texto. Concordo plenamente com seu conteúdo, principalmente no que diz respeito aos comerciais de cerveja. Não entendo o motivo de tanta palhaçada. Se acabesse nisso, tudo bem, mas quantas e quantas pessoas eu já ouvi na rua falando igual ao troca-letras do comercial? Veja a influência... isso sem falar nos próprios programas de televisão, mas deixa pra lá. Isso rende muita conversa. Porém, como seu texto também diz, há raros momentos de lucidez, e acrescentaria, também, muita criatividade. Um exemplo é o comercial de uma empresa de aviação, que mostra vários animais dormindo de seu modo natural (aves nos galhos, morcegos pendurados), e então, a voz que diz algo como "não é porque você voa que tem que dormir sem conforto", isso tudo numa montagem e música muito agradável. Saudações, Thiago.

    16/07/2004 19:57

    [Bonassoli] [www.bonassoli.blogspot.com]
    Lembro de um comercial recente da Folha de São Paulo, que se arroga o título de jornal "nacional" e o mais importante do país. Na dita propaganda, quem ouvia Skank, era legal e lia a Folha. Quem ouvia funk era um tolo e a imagem era de um cara que pulava ao invés de andar. Não gosto de funk, muito pelo contrário, mas que o comercial era preconceituoso, acho que não há dúvidas.

    16/07/2004 19:18

    [Robi] [www.disease.zip.net]
    Olá, vim conhecer seu espaço aqui.. Depois passo com mais calma, pois o pouco q eu vi tá ÓTIMOOOO, parábens.. Daqui a pouco volto.. Bjossss...

    16/07/2004 13:00

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