9 de nov de 2009

SONHOS, de Kurosawa

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Há filmes mais ou menos marcantes e isto depende muito da personalidade e do sentimento de cada um.

Quando vi SONHOS, de Akira Kurosawa, meus conceitos sobre a sétima arte se alteraram profundamente e percebi, com muita clareza, que Hollywood é principalmente uma fábrica de filmes e não de cinema.

Dividido em oito episódios, nem todos guardam a mesma qualidade e um ou dois, mesmo, chegam às raias da pieguice (como Monte Fuji em Vermelho, sobre explosões nucleares tendo como fundo o Monte Fuji). Mas não deixa de ser um alerta sobre uma possibilidade chocante e, esta sim, nada piegas.

O Pomar de Pêssegos é uma instigante incursão nos mistérios da mente infantil: um menino febril segue uma menina que não existe, mas que viu na companhia de suas irmãs, e chega aos fundos da residência onde outrora existia uma plantação de pêssegos, derrubada pela família, e é julgado pelos espíritos das árvores...

É um verdadeiro achado, no capítulo Corvos, sobre Van Gogh, a justificativa do pintor sobre a extirpação da própria orelha, e que demonstra, na visão do diretor, que todo o sacrifício é válido por amor à arte.

A poesia de O Povoado dos Moinhos é comovedora e a fotografia e a própria música sobressaem – principalmente uma, singela e percussiva, que abrilhanta um funeral sereno e festivo, incompreensível para os ocidentais –, talvez superiores mesmo aos diálogos, nem por isto menos importantes. Cinema é uma arte visual e as tomadas dessa seqüência são magníficas.

Mas o episódio mais inquietante e profundo é, a meu ver, O Túnel, sobre o soldado que, a caminho do lar de seus pais, precisa ser convencido de que, com seus companheiros, foi morto numa batalha em que o único sobrevivente foi seu comandante.

Poderá haver algo mais aterrador do que alguém precisar ser convencido de que está morto?


Publicado em blog do autor, do mesmo nome, no Uol,
em 19/06/2004.
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Um comentário:

  1. Pitaco constante do posto original:

    [M.R.Sudo] [mrsudo@bol.com.br] [www.quandosopraominuano.blogger.com.br]
    Bah... me deu vontade de assistir esse filme, do Kurosawa só vi (e tenho copia no HD do computador) os sete samurais e sanjuro... Valeu pela singela homenagem a mim e a Anja, coloquei o teu belo poema na descrição do meu blog (já antigo, com 4 anos quase) porque ela traduz bem a motivação maior (mas nunca alcançada) do blog "E os ventos as trazem num grito que em vão sacode o infinito das nossas ânsias dormidas"

    19/06/2004 14:30

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